A última do STF (Supremo Tribunal Federal) ontem à noite, dia 17, foi como uma porrada na cara dos jornalistas, categoria de profissionais a qual atuo desde 2003, quando comecei meu curso de Jornalismo na PUCPR.
A Justiça brasileira optou por votar (oito votos a um) contra a obrigatoriedade do diploma em curso superior específico para o exercício da profissão de jornalista no Brasil. Para o STF a formação específica em curso deve ser dispensada para a garantia do exercício pleno das liberdades de expressão e informação. Trocando em miúdos: para ser jornalista agora basta saber escrever e sair publicando onde der. (O que também já diminui em muito as possibilidades de intervenção no jornalismo pelos cidadãos brasileiros – talvez daqui uns cinco anos os analfabetos também sejam protegidos pelo STF, a fim de se tornarem jornalistas aptos).
Porque chegaram até isso, e quais são seus argumentos? Ain… Dói… Mas vamos lá… 1) A salvaguarda da sociedade é não restringir nada… 2) Atividade jornalística é o mesmo que “intimidade com as palavras”… 3) Em outros países o jornalismo funciona bem sem exigência do diploma (onde? na China?, ah não, é que “nóis” é chique e desenvolvido como os europeus)… 4) Isso evita os obstáculos à livre expressão garantida pela Constituição Federal… 5) E a balela continua por aí…
O presidente do STF, Gilmar Mendes, completou ainda dizendo que “quando uma noticia não é verídica ela não será evitada pela exigência de que os jornalistas frequentem um curso de formação. É diferente de um motorista que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão. Não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão”.
Já tive algumas experiências no ramo, e é fato que muitos jornalistas atuam em redações sem terem cursado a graduação em Jornalismo, sendo assim este julgamento feito pelo STF só viria a espelhar a realidade. Por outro lado, sabe-se que muitos autores e pensadores deste século consideram a imprensa/mídia como um dos poderes centrais da humanidade.
Me atrái a hipótese de que no Brasil os três poderes (judiciário, legislativo e executivo) foram substituídos por: 1°) Poder Econômico; 2º) Poder Midiático; 3º) Poder Político, e ainda: o Poder Político não teria autonomia e sim seguiria decisões feitas primeiramente pelo Poder Econômico e aprovadas pelo Poder Midiático, para então poder atuar.
Com isso, para mim, fica difícil encarar esta declaração de Gilmar Mendes: “a profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade”… Talvez se alguém da Justiça tivesse cursado Jornalismo, saberia das Teorias da Comunicação… Hipótese do Agendamento… Enfim, acho BEM perigoso colocar a atividade jornalística na mão de qualquer cidadão, até porque todos sabemos que somos regidos pelo Poder Econômico, e não pela liberdade de idéias e expressão.
Mendes ainda chegou, em seu discurso, a comparar jornalistas com cozinheiros. “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área”, disse. VALHA ME DEUS!
Uma liminar do STF já garantia, desde novembro de 2006, o exercício da atividade jornalística aos que já atuavam na profissão independentemente de registro no Ministério do Trabalho ou de diploma de curso superior na área de jornalismo. Uma coisa é permitir que cidadãos sem formação exercem a atividade jornalística, outra coisa é tornar INCONSTITUCIONAL a obrigatoriedade do diploma de jornalista.
Garibando algums opiniões no Twitter (www.twitter.com/carow85), encontrei uma, postada por Adriano Pinheiro (@dricopinheiro), que para mim resumiu bem: “a capacidade pra atuar em determinada área com sucesso envolve mais que um diploma, mas anular a importância desvaloriza a categoria”.
Eu poderia ficar escrevendo, escrevendo e escrevendo, mas resolvo parar por aqui. Um ótimo dia para os não-jornalistas!



é uma discussão que se extende por vários anos, e eu ainda não sei que posição tomar, mas de uma coisa eu tenho certeza; sei a posição que não vou tomar e isso é um grande começo. Primeiro, gostei mto do texto e da argumentação, tambem exerço a profissão desde 2003 quando comecei a faculdade e imagino o que vc fala, ja passei por algumas situações em redação de jornal. Concordo com a divisão de poderes citada e acho sim, sem querer dar megalomania à nossa profissão, que temos um poder mto grande e mto perigoso nas mãos. acho os argumentos do ministro Gilmar Mendes muito impertinentes, mas a decisão do STF talvez não seja tanto. Vou escrever a respeito no meu blog. Abraços e obrigado pela excelente leitura.
Comment by Marcerlo de Freitas — 18 junho 2009 @ 13:16
“Um chefe de cozinha não precisa de diploma para ser um bom cozinheiro…”.
Realmente. Vendo por este lado, poderíamos dizer?
- Um arquivologista não precisa de graduação, basta ter um bom senso de organização.
- Qual o motivo de Artes Cênicas? Qualquer um pode interpretar.
- Biblioteconomia… bobeira, é só arrumar e cadastrar livros.
- Ciência da computação. Mais desnecessário ainda, principalmente com esse acesso a tanta informação que a internet nos dá, só não aprende informática quem não gosta da área.
- Relações Públicas. Hmm, qualquer político já é graduado nessa área afinal, se não tivesse uma relação pública boa não seria eleito
- Educação artística? Pra quê isso? Meu primo pinta quadros bem de mais, minha tia então… ela bota muitos formados em educação artista no chinelo.
- Esporte. Vamos chamar os nossos craques do futebol (viva o Brasil). Concordo que poucos dos graduados nessa área jogam tão bem quanto eles. Chamemos um cabeça-de-área para dar aulas de esporte
- Música. Temos vários MC’s… é uma injustiça considerar que eles conhecem menos de música que um graduado numa faculdade.
- Cinema: Injustiça! Temos várias pessoas que fazem filmes para o Youtube. Como podemos dizer que eles não têm a mesma capacidade de alguém que se formou em Cinema?
- Dança??? Temos várias rainhas de bateria em todos os carnavais.
- Filosofia. Isso é graduação? Pelos comentários do presidente do STF, Gilmar Mendes, uma pessoa pode ser um ótimo filósofo somente soltando palavras bonitas com interpretações próprias e com certeza seria muito mais profissional que um cidadão que estudou se graduou para a área mas não seguiu a linha da escrita de livros, textos, versos.
- Hotelaria??? Não entendo, bastaria ser educado e, segundo o STF, não é necessário ter uma faculdade de hotelaria para ser educado. E se quiser trabalhar com turistas internacionais, basta fazer um cursinho de idiomas e ter fluência que seria o suficiente.
- Turismo. Não seria o mesmo que a hotelaria, pensando e seguindo o comentário do presidente do STF Gilmar Mendes?
Bom, é claro que discordo de tudo que está escrito acima. Só estou citando alguns exemplos da posição ridícula que o grande presidente e o próprio STF assumiu derrubando a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para exercer a profissão. Deplorável.
Ass.: Um Analista de Sistemas (Bacharel em Análise de Sistemas) ou, como o STF decidiu, também um jornalista
Comment by André, um Analista de Sistemas (Bacharel em Análise de Sistemas) ou, como quer o STF, agora um jornalista :( — 18 junho 2009 @ 15:32