leitmotiv
Agência Aorta
<< carow.com.br

26 agosto 2010

Joaquin, Phoenix do Paraguai

Oi oi minha gente!

Há quanto tempo, hein? Estou afastada por conta de um novo emprego, antes estava desempregada e me sobrava bastante tempo. Hoje chego cansada, e mesmo cheia de assuntos e pautinhas para o Leitmotiv, acabo dedicando meu tempo em outras coisas. Hoje decidi que não posso mais deixar este espaço de lado, até porque acaba fazendo me sentir frustrada, pois adoro isso aqui. =D

Vou falar sobre um assunto que me tocou semana passada. Um misto de revolta com admiração. É o caso do ator Joaquin Phoenix (o bonitão que interpreta Johnny Cash em “Johnny and June” – 1995). Como a maioria já sabe, há quase um ano temos notícias de que este rapazote simplesmente surtou. Abandonando a carreira de ator para se tornar um cantor de hip hop. Ele detonou sua imagem de galã e se mostrou maltrapilho, em diversas revistas, tablóides e em entrevista em talk show bem conhecido por aí… Veja abaixo o vídeo com a entrevista no David Letterman na íntegra.

Depois desta entrevista não surgiram mais dúvidas de que Joaquin tinha mesmo ficado “pancada”. Ou não.

Poréééééém… Ao navegar pelo YouTube na semana passada me deparei com o vídeo do “novo filme do Joaquin Phoenix – I’m Still Here”. Iniciei e, resumindo, o personagem que o ator interpreta nada mais é que o próprio Joaquin Phoenix “cantor de hip hip surtadão” só que tornado ficção. Surgiu também a possibilidade de ser um documentário, afinal é a mesmíssima história já contada por jornais e revistas sobre a vida do ator. Mas essa eu descarto.

A primeira reação foi de revolta, pensei “como pode este ator ter a cara de pau de enganar meio mundo (leia-se eu) com este surto fake???”… Conversando melhor com Marcelo, redator querido da agência onde trabalho, ficou claro que este filme, no mínimo, tem uma linguagem totalmente nova para apresentar. A identificação com o personagem vai ser tamanha, pelo ator ter vivenciado ele em diversas facetas midiáticas, que o espectador vai se perder entre ficção e realidade.

Surpreendente. Revoltante. Genial. Arrisco a dizer que é uma linguagem totalmente inovadora. Você acaba por confundir tudo, o que você viu em entrevistas, revistas de fofocas como algo real, se torna imaginário no cinema. Por um lado, desconstruindo tudo o que a mente considerou verdade e, por outro, sustentando a ideia cinematrográfica como um todo. Esperando chegar na telona para saber como vou me sentir.

Se alguém tiver mais informações sobre este caso, escreve aí pra gente.  =D

 

5 maio 2009

Dentro da fogueira por Camila Galvão

6a00d83451bdb269e200e54f72d5098833-800wi

“Sou independente”. Ando ouvindo isso de muitas mulheres por aí. É a frase que ecoa entre as quatro paredes das reuniões de luluzinhas, lulus e luluzonas. Independentes. Como se isso fosse um título pós-moderno de situação legal.

- Você é casada ou solteira?
- Sou independente.

Independentes num novo sentido da palavra, creio eu. Independentes que tem cartões de crédito pagos por segundos, terceiros ou quartos. Independentes que não tem coragem de ligar ou conseguir um número de telefone quando o dono da conta é do sexo oposto. Independentes que esperam o homem dar o primeiro passo sempre. Como não? Pegaria mal puxar assunto com um desconhecido. Independentes que dependem da aprovação da moralidade machista brasileira para se sentirem seguras. Independentes que seguem padrões de comportamento impostos por alguns poucos homens e outras tantas mulheres achando que é um consenso geral. Independentes que não questionam. Independentes que não transam no primeiro encontro. Independentes que têm vergonha de comprar uma camisinha na farmácia. Independentes que deixam o namorado dirigir o próprio carro como se um bigode e uma barba transformasse qualquer ser humano em chofer.

Que independência é essa que em vez de libertar limita? Eu devo estar muito atrasada em relação a algumas posturas dentro dos relacionamentos atuais ou o significado da palavra ganhou mesmo um novo sentido prático que eu desconheço. Para mim, independência sempre foi poder fazer o quero na hora que quero, como quero e com quem eu quero. Com responsabilidade sobre meus atos e respeito pelos outros, claro. Mas essa nova independência eu não quero. Independência que quer ser, além de tudo, financeira. E nem financeira o é. Até porque no aspecto financeiro ainda dependemos de banco, de juros, do governo, de um emprego e de todo um sistema que insiste em nos excluir ao primeiro sinal de deslize ou descanso mental. Hoje, o que menos somos é independentes quando o assunto é dinheiro.

Então por que será que essas mulheres escolheram a palavra independente para se autodefinir? Por ignorância? Não creio. Talvez para convencerem a si mesmas que são tão modernas e bem resolvidas quanto o mundo cobra que sejam. E o mundo sempre cobrou muito das mulheres. Temos que ser bonitas, nos vestir bem, saber falar sobre tudo, saber se portar à mesa, sermos profissionais, sermos boas mães, filhas e avós, conseguirmos um trabalho rentável, saber gastar a renda provinda dele, sermos gentis e ao mesmo tempo assertivas. Temos que saber sambar dentro de uma caixinha de fósforos. Temos que ser cérebro, coração e corpo. Nesse processo infinito de humano-coisificação – inventado e mantido pela mídia – algumas mulheres se perdem delas mesmas e vagam por entre milhões de identidades, alheias ou imaginárias. Vagam até se convencer de que são qualquer outra coisa que não elas mesmas. Qualquer outra coisa que atraia um número maior de olhares cobiçosos e a luz fugaz de holofotes globais. Não, não quero olhares que me des-personificam. Não quero o pódio de chegada dessa corrida sem sentido. Não quero as luzes desse picadero medíocre.

Quero apenas ser o meio discreto por onde a vida nasce. Quero ser o olho de Deus na Terra. Quero ter meus milhares de sentidos e usar todos da maneira que bem entender. Quero receber o olhar profundo de quem vê através da coisa na qual tentam me transformar. Quero ter apenas minha própria luz de lampião, velho e carregado de vida. Quero, de vez em quando, poder me recusar a acender. Quero poder encontrar a solidão sem abandonar a confiança. Quero receber a negação dessa sociedade nada secreta de cabides sem perder minha auto-estima e a beleza inata que ela produz. Quero ser carne e não músculo. Quero ser leite e não silicone. Quero ser cérebro e não cabelo. E, acima de tudo, quero ser coração e entranhas e não uma emoção congelada na mais perfeita das molduras. Quero sangrar periodicamente como qualquer bicho fêmea. Não quero me negar o prazer de ser instinto num meio cada vez mais civilizadamente adestrado. Quero ser o coração e as entranhas do mundo real. Quero ser parte útil e essencial desse mundo que come, bebe, excreta, ama, goza e não morre nunca de tão vida que é. Quero, no bater de cada pulsação, mostrar às máquinas perfeitas do mundo humanizado que a desumanização do animal homem é extremamente necessária à manutenção da vida.

Quero ser independente de todas as independências criadas pelas mulheres pseudo-modernas. Quero ficar fora desse ritual cíclico de se auto-denominar qualquer coisa e adaptar os títulos recebidos a cada nova requisição do quarto poder. Se for para ser independente, o quero ser no sentido mais libertário e excludente que o termo pode ter. Excludente mesmo. Se o isolamento for necessário ao meu processo libertador, quero ser excluída sempre. De todos os não-lugares povoados de personagens humanos, de todas as rodinhas de fantoches povoadas de assunto nenhum, de tudo que me lembrar a luta intensa pela auto-limitação disfarçada. Quero poder queimar viva por isso um dia. E quero encontrar a fogueira cheia.

Texto escrito pela jornalista Camila Galvão no Verso e Avesso.

De tirar o fôlego.